Publicação: 07/11/2015

 

 

Dia 05 de novembro de 2016: símbolo da impunidade

 

 

“O aproveitamento mineral com soberania e sustentabilidade no Brasil, somente ocorrerá com um novo marco legal, no qual a prioridade não seja o aumento da produção a qualquer custo, destruindo o meio ambiente e provocando agravos à saúde dos trabalhadores, às comunidades...” (CNTI, outubro 2015).


Saramago, em um de seus preciosos textos nos lembra de um camponês de Florença: “Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram, portanto, as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. ‘O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino’, foi a resposta do camponês. ‘Mas então não morreu ninguém?’, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: ‘Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.’"


Bento Rodrigues, 05 de novembro de 2015, nem a “sirene” tocou. Ela, a “sirene”, que ao ser ouvida é o presságio da morte, nesse dia, “silêncio”! O silêncio, um outro cruel presságio. Símbolo de uma omissão que persegue aos atingidos e aos injustiçados. Uma impunidade cuja raiz imuniza os criminosos e penaliza as vítimas. Uma lição aprendida e repassada intensamente pela grande mídia. Numa atitude malsã concentra a visibilidade ladeando sua intenção.


Após 365 dias, 05 de novembro de 2016, mostras de uma justiça aparteada, cujas leis aprofundam a dor das vítimas, fortalecendo a defesa e a prática dos criminosos. Símbolo de um Estado (por seus Três Poderes) que, por meio de seus interlocutores governantes, desde a primeira hora, já demonstrou de que lado está. A impunidade é só o gracejo dos mandatários. A ordem está estabelecida. A injustiça, a desigualdade e a exclusão social são as partes do povo neste latifúndio.


“Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor. ” (SARAMAGO).

 


A Diretoria da CNTI


 

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