Publicação: 16/09/2026

 

 

Formação sindical e proteção ao trabalho no centro dos debates da CNTI


Plenária dos 80 anos reúne especialistas para discutir hegemonia, formação de lideranças, precarização, saúde do trabalhador e os desafios da proteção previdenciária

 


O segundo dia da Plenária Nacional CNTI 80 Anos, nesta quarta-feira (16), foi marcado por debates sobre a formação sindical e os impactos das transformações econômicas e sociais sobre o mundo do trabalho.

Ao longo do dia, dirigentes e militantes da base da Confederação discutiram desde a disputa de hegemonia e a preparação de novas lideranças até os efeitos da precarização sobre direitos, saúde e proteção previdenciária dos trabalhadores.
 


Na programação da manhã, o tema “Formação sindical e os impactos da realidade socioeconômica brasileira” abriu os trabalhos. O debate reuniu o professor titular da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Ricardo Lara, e o professor-doutor da UFVJM (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri), Diogo Prado Evangelista, com mediação de Fabrício José Missio, professor do Departamento de Economia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e presidente da Ipead/UFMG (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e Administrativas).

As exposições abordaram os processos culturais, a hegemonia e as relações de poder na formação das lideranças, além das implicações da dominação ideológica sobre as relações de trabalho, a organização sindical e a esfera política.
 


Os debatedores também destacaram o papel da educação popular e da formação sindical diante da hegemonia patronal e das forças do mercado.

Para os especialistas, a preparação de dirigentes e militantes exige domínio de dados, informações históricas e indicadores socioeconômicos capazes de transformar conhecimento em instrumento de organização e ação da classe trabalhadora.

A discussão apontou, assim, para a necessidade de formação sindical que não se limite à transmissão de conteúdos, mas prepare os dirigentes para compreender a realidade, identificar os mecanismos de poder e atuar sobre esses.
 

 

TRABALHO, SAÚDE E PROTEÇÃO SOCIAL

Ainda pela manhã, a programação contou com a participação de Ileana Neiva Mousinho, subprocuradora-geral do Trabalho do MPT (Ministério Público do Trabalho), e Gilmar Ortiz, presidente da Abrastt (Associação Brasileira de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora).

O debate foi mediado pela professora e especialista em formação de lideranças sindicais e diretora da Repensar Cursos.

No período da tarde, os trabalhos avançaram para o tema “Trabalho e proteção previdenciária: realidade e perspectivas – precarização, ambiente, condições e saúde laboral”. A mesa temática foi mediada pelo professor-doutor René Mendes, coordenador do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora, do IEA/USP (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo).

 


Participaram como palestrantes Carolina Maria Ruy, jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical, editora do Rádio Peão Brasil e integrante do Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois; e Paulo Rogério Albuquerque de Oliveira, professor e auditor-fiscal da Receita Federal do Brasil, autor de estudos e instrumentos relacionados ao PPP (Perfil Profissiográfico Previdenciário), NTEP (Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário), FAP (Fator Acidentário de Prevenção) e aos eventos de SST (Saúde e Segurança do Trabalho) no eSocial.

O debate tratou dos impactos das Reformas Trabalhista e previdenciária sobre a realidade dos trabalhadores industriários e das novas formas de precarização, entre essas a terceirização irrestrita, a pejotização, o contrato intermitente e a plataformização algorítmica.

Também estiveram no centro das discussões as condições e os ambientes de trabalho na indústria, com os riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos, inerente aos processos de trabalho, além das políticas de vigilância da saúde do trabalhador e da necessidade de ambientes laborais seguros.

DA INDUSTRIALIZAÇÃO AO NEOLIBERALISMO

Carolina Ruy recuperou a trajetória histórica das relações de trabalho e das condições laborais a partir das transformações do modelo de desenvolvimento brasileiro na década de 1930.

Na exposição, ela percorreu o período do nacional-desenvolvimentismo, as crises e transformações das décadas de 1970 e 1980 e o avanço do neoliberalismo.

A perspectiva histórica ajudou a situar as mudanças atuais no mundo do trabalho como parte de processo mais amplo de transformação econômica e social, no qual a organização sindical também precisa se adaptar para enfrentar novas formas de exploração e precarização.
 


Paulo Rogério, por sua vez, chamou atenção para mecanismos utilizados para contornar direitos trabalhistas e previdenciários, muitos desses pouco conhecidos pelos próprios trabalhadores. Para ele, a disputa também passa pelo domínio das novas tecnologias e pela capacidade de comunicação das entidades.

“Os sindicatos precisam deixar de ser analógicos para serem digitais. A era do papel e do PDF acabou”, enfatizou.

A afirmação sintetizou uma das preocupações que atravessaram os debates: a necessidade de modernizar instrumentos de organização, comunicação e formação sem perder de vista a defesa dos direitos e a representação coletiva dos trabalhadores.

DEBATE NOS GRUPOS

Depois das exposições e dos debates em plenário, os participantes da Plenária Nacional CNTI 80 Anos foram divididos em grupos de trabalho, dando sequência às discussões e aprofundando os temas apresentados ao longo do dia.
 


A programação combinou análise histórica, formação política e sindical, economia, saúde do trabalhador e proteção previdenciária, colocando diante dos dirigentes desafio comum: compreender as transformações do mundo do trabalho para fortalecer a capacidade de organização e defesa dos direitos da classe trabalhadora.