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Publicação: 22/04/2026
21 de
abril e a riqueza que não chega: a
fissura que atravessa o Brasil

O 21 de abril, marcado pela memória de
Tiradentes e da Inconfidência Mineira,
não deve ser tratado apenas como um
episódio do passado, mas como um espelho
incômodo do presente. Naquele tempo, a
revolta se erguia contra a derrama —
símbolo de um sistema que extraía
riqueza sem devolvê-la à sociedade que a
produzia.
Passados mais de dois séculos, o Brasil
é formalmente soberano, mas ainda
convive com uma fissura estrutural
semelhante: a desconexão entre a
produção da riqueza e sua apropriação
social.
De um lado, consolidou-se um padrão
econômico baseado na exportação de
commodities com baixo valor agregado,
reforçado por marcos como a Lei Kandir.
Trata-se de uma inserção internacional
que limita a capacidade do país de reter
valor, tecnologia e densidade produtiva.
Produz-se muito, mas entrega-se
relativamente pouquíssimo para a classe
trabalhadora e ao povo brasileiro.
De outro, o próprio espaço interno de
distribuição dessa riqueza encontra-se
tensionado por uma estrutura fiscal e
monetária que prioriza o serviço da
dívida, em um contexto extorsivo de
juros elevados. O resultado é a
compressão do investimento público, das
políticas sociais e das condições
materiais que sustentam o
desenvolvimento e o trabalho.
Esses dois movimentos não são
independentes. Ao contrário, formam um
circuito: uma economia que agrega pouco
valor internamente tende a depender mais
de mecanismos financeiros, o que reforça
a centralidade dos juros e aprofunda a
dificuldade de distribuir a riqueza
produzida.
O Brasil contemporâneo vive, assim, uma
dupla drenagem: parte da riqueza sai
antes de se realizar plenamente no
território; outra parte permanece, mas
não circula de forma equitativa. Entre o
extrativismo moderno e a financeirização,
reproduz-se, sob novas formas, uma velha
questão: quem se beneficia do que o país
produz?
Diferentemente do século XVIII, não há
uma metrópole única a ser identificada.
A dinâmica atual envolve cadeias globais
de valor e circuitos financeiros
complexos, muitas vezes mediados por
decisões internas. Ainda assim, o núcleo
do problema permanece: a riqueza não se
converte, na medida necessária, em
bem-estar coletivo, tampouco garante a
soberania popular.
Reinterpretar o 21 de abril, portanto,
não é um exercício de nostalgia, mas de
responsabilidade histórica. O desafio
contemporâneo não é apenas crescer,
exportar ou equilibrar contas públicas,
mas assegurar que a riqueza produzida no
país permaneça, circule e se traduza em
vida digna para quem trabalha.
Sem isso, a independência e a
soberania permanecem incompletas — e a
promessa histórica da Inconfidência
Mineira segue em aberto.
A Diretoria

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