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Publicação: 09/02/2026
Caducidade não é solução: o setor
elétrico exige decisão técnica

O debate sobre a caducidade dos serviços
da Enel Distribuição São Paulo precisa
ser tratado com seriedade e
responsabilidade. Energia elétrica não é
mercadoria comum: é um serviço
essencial, estratégico e diretamente
ligado à qualidade de vida da população
e ao desenvolvimento econômico.
Uma decisão precipitada envolvendo a
Enel teria impactos imediatos sobre
contratos de trabalho, planos de
Previdência e aposentadoria,
financiamentos, contratos de manutenção
e prestação de serviços. Esses
compromissos ultrapassam R$ 20 bilhões.
Não existe solução mágica capaz de
absorver uma ruptura dessa magnitude sem
prejuízos profundos. O resultado seria o
comprometimento da operação do sistema
elétrico, independentemente de quem
assumisse a concessão.
ANO ELEITORAL NÃO PODE PAUTAR
POLÍTICAS PÚBLICAS
Estamos em ano
eleitoral, período em que soluções
simplistas costumam ganhar espaço. No
setor elétrico, isso é especialmente
perigoso. Transformar um debate técnico
em disputa política ou buscar medidas de
efeito imediato pode causar
consequências ruins para a população.
A experiência mostra que privatização
não é bom, pior ainda sem controle, sem
fiscalização rígida e sem exigência
permanente de investimentos. Leva,
inevitavelmente, à precarização do
serviço e das relações de trabalho.
Precipitar decisões apenas amplia esse
risco.
O MODELO DE CONCESSÃO E OS LIMITES DA
CADUCIDADE
O caminho a ser seguido já está
definido: está no contrato de concessão
da Enel. É o contrato que estabelece
deveres, responsabilidades e punições.
Diante disso, nossa posição é clara:
defendemos evitar a caducidade.
A caducidade é uma medida extrema. Não
resolve problemas estruturais e tende a
aprofundar a instabilidade do setor. Em
seu lugar, defendemos a construção de um
plano de melhoria e investimentos, capaz
de enfrentar os impactos das mudanças
climáticas e impor obrigações reais à
Enel, com acompanhamento rigoroso e
consequências claras.
O PAPEL DA ANEEL: DECISÃO TÉCNICA,
DURA E RESPONSÁVEL
A decisão tem que ser técnica e deve
ser dura. A Enel deve ser duramente
castigada e responsabilizada. Mas não é
retirando a empresa do jogo que as
obrigações e responsabilidades serão
solucionadas. Essa crise sempre foi
previsível.
A Aneel (Agência Nacional de Energia
Elétrica) precisa exercer plenamente seu
papel. Obrigar a Enel a realizar
investimentos robustos em
infraestrutura, manutenção, operação e
qualidade do serviço para que seja capaz
de enfrentar os impactos das mudanças
climáticas, vinculando o descumprimento
dessas obrigações à perda da concessão.
É o maior castigo possível para uma
distribuidora. Tem que sentir no bolso.
Ir embora não é o pior castigo para a
empresa.
Esse plano deve estabelecer metas
objetivas –investimentos em
infraestrutura, manutenção da rede,
fortalecimento da gestão e melhoria do
atendimento – com prazos definidos. Caso
a Enel não cumpra, a caducidade passa a
ser consequência natural, e não um gesto
político precipitado.
A Aneel tem a oportunidade de melhorar o
modelo aplicado, exigindo novos
investimentos diretamente na
infraestrutura e manutenção preventiva.
REFORÇO OPERACIONAL E CONDIÇÕES DE
TRABALHO
Eis alguns dados objetivos do
período 2024–2025:
contratações em São Paulo – 1.600
profissionais foram incorporados às
equipes próprias de manutenção, operação
e atendimento da Enel;
gestão de crise – crescimento de 30% do
números de equipes mobilizadas em caso
de crise;
+ carros – frota operacional ampliada,
com 225 novos veículos incorporados;
campo – maior atendimento em campo com
implantação de 124 motoeletricistas;
+ monitoramento – aplicação de
tecnologia nas redes com mais de 2
milhões de equipamentos inteligentes
instalados para automação, telecontrole
e monitoramento;
plantonistas – sobreaviso incluído no
regime de trabalho com negociação junto
ao nosso sindicato, no qual
trabalhadores – especialmente das
equipes de manutenção e emergência –
permanecem fora da jornada normal à
disposição da empresa, aguardando
eventual chamado para serviço;
aumento no piso salarial – aumento no
piso salarial de ingresso dos
trabalhadores, resultado de negociação
coletiva.
Os dados acima não eliminam falhas nem
afastam a necessidade de fiscalização
rigorosa, punições e exigência
permanente de investimentos e melhorias
no serviço.
CADUCIDADE É UM CAMINHO PERIGOSO
A caducidade dos serviços da Enel
levaria à judicialização em massa,
ampliaria a insegurança regulatória e
não resolveria os problemas enfrentados
pela população. Pelo contrário, poderia
agravá-los.
Do ponto de vista social, os impactos
seriam devastadores. Estamos falando de
mais de 40.000 postos de trabalho,
diretos e indiretos. O encerramento do
CNPJ da Enel significaria desorganização
completa da cadeia produtiva do setor
elétrico.
Além disso, em um cenário de ruptura, é
preciso perguntar: qual banco
financiaria um setor marcado por
instabilidade regulatória e risco de
quebra contratual? Sem crédito, os
investimentos travam e o serviço público
se deteriora.
PRIVATIZAÇÃO E PRECARIZAÇÃO CAMINHAM
JUNTAS
A alternativa à caducidade seria um
novo leilão de concessão. Esse caminho,
no entanto, não garante melhoria do
serviço. A experiência mostra que
processos desse tipo frequentemente
resultam em precarização das relações de
trabalho, redução salarial, perda de
direitos e desvalorização profissional.
No setor elétrico, isso é
particularmente grave. Conhecimento
técnico não se recompõe do dia para a
noite. A substituição de trabalhadores
experientes por mão de obra menos
qualificada compromete a segurança da
rede, a capacidade de resposta a
emergências e a qualidade do atendimento
à população.
A experiência mostra que privatização
sem controle, sem fiscalização rigorosa
e sem exigência permanente de
investimentos leva à precarização do
serviço e das relações de trabalho.
Causa estranheza que esse rigor seja
aplicado de forma seletiva. Quando se
trata da Enel, fala-se diariamente em
caducidade. Já no caso da Sabesp,
recentemente privatizada, não se vê o
mesmo debate público, mesmo diante de
impactos relevantes sobre um serviço
igualmente essencial, como o saneamento
básico. Falta água todo dia e a
justificativa sempre é direcionada aos
efeitos das mudanças climáticas.
Por tudo isso, reafirmamos: a caducidade
dos serviços da Enel em São Paulo não é
solução. O caminho responsável passa por
regulação forte, fiscalização rigorosa e
imposição de obrigações claras à Enel,
com punições reais em caso de
descumprimento.
Sem controle, a privatização leva à
precarização. Com regulação firme, o
serviço público pode ser corrigido,
preservando empregos, garantindo
investimentos e protegendo a população.
Eduardo Annunciato – Chicão
Presidente do Sindicato dos
Eletricitários de São Paulo e da
Federação Nacional dos Trabalhadores em
Energia, Água e Meio Ambiente – FENATEMA
Diretor de Educação da Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Indústria
(CNTI)
Vice-presidente da Força Sindical
Fonte: Eletricitários

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