Publicação: 22/09/2026

 

 

CNTI 80 anos transforma memória de luta em agenda para o futuro


Grupos de trabalho levaram debates da Plenária à base e propuseram sindicato mais digital, presente e democrático, com foco em saúde, proteção social, juventude e renovação sindical

 


Que fazer para que entidade sindical de 80 anos continue sendo indispensável ao trabalhador das próximas décadas? A pergunta, embora simples, atravessou os debates dos grupos de trabalho da Plenária Nacional CNTI 80 anos, realizada no CTE (Centro Técnico Educacional), em Luziânia (GO), entre os dias 14 e 18 de setembro.


Sob a orientação pedagógica da professora Regina Moreira, dirigentes e delegados deixaram as discussões das plenárias magnas e foram para as salas de trabalho debater em grupos.

 

Ali, a experiência acumulada pela Confederação encontrou os desafios de um mundo do trabalho marcado pela inteligência artificial, novas formas de contratação, precarização, mudanças geracionais e problemas crescentes de saúde mental dos trabalhadores.


O método buscou transformar o diagnóstico em proposta. “As atividades em grupo representam o elo estruturante de todo o evento”, registra o relatório pedagógico, ao definir os grupos como ponte entre os conteúdos apresentados pelos especialistas e a realidade concreta da base industriária.


O resultado foi a construção de agenda que combina memória e inovação, organização tradicional e ferramentas digitais, direitos históricos e novas demandas sociais.


SINDICATO QUE PRECISA ESTAR ONDE O TRABALHADOR ESTÁ

 

 

A primeira constatação dos grupos foi que a transformação tecnológica já alterou a maneira de trabalhar, comunicar e organizar pessoas. Por isso, a formação sindical não pode permanecer presa a métodos exclusivamente presenciais e analógicos.


Entre as propostas estão cursos on-line, educação a distância, formação tecnológica, domínio da CLT, uso de IA e profissionalização das redes digitais. A ideia é preparar dirigentes para falar com trabalhadores que estão cada vez mais conectados, inclusive por plataformas digitais.


O desafio, porém, não é simplesmente adotar novas ferramentas. É saber utilizá-las para reconstruir e construir a relação com a base.


Uma das formulações do relatório sintetiza esse entendimento: “Ser um sindicato atuante e estar efetivamente inserido na base”, com dirigentes presentes nos locais de trabalho e capazes de dialogar em linguagem compreensível.


A preocupação aparece também nos debates gerais da Plenária. Durante a discussão sobre formação sindical, o professor Diogo Prado Evangelista defendeu que as entidades acompanhem a transformação tecnológica. “Os sindicatos precisam deixar de ser analógicos para serem digitais. A era do papel e do PDF acabou”, afirmou.


Para os grupos, essa mudança deve caminhar junto com a recuperação da história sindical. A memória da CNTI, segundo o relatório, não deve funcionar como peça de museu, mas como instrumento para formar novas lideranças.


A síntese proposta é expressiva: “Valorizar o passado, escrever o presente e projetar o futuro.”


SAÚDE MENTAL DEIXA DE SER TEMA PERIFÉRICO

 


Se a tecnologia modifica o trabalho, a pressão por produtividade, as metas abusivas e as jornadas excessivas também modificam a forma como o trabalhador adoece.


Na mesa sobre vigilância em saúde e riscos psicossociais, os delegados identificaram sobrecarga, assédio moral e sexual, pressão psicológica, insegurança, isolamento, esgotamento profissional e falta de autonomia entre os principais problemas dos ambientes de trabalho.


A proposta sindical é deixar de agir apenas depois que o problema aparece.


Os grupos defenderam canais seguros de denúncia, mecanismos de escuta, campanhas de prevenção, treinamento e acompanhamento sindical. Também propuseram que medidas relacionadas às normas de saúde e segurança sejam incorporadas às convenções e aos acordos coletivos.


“Escuta afetiva e qualificada” foi uma das expressões utilizadas no relatório para definir o tipo de acolhimento que as entidades devem oferecer.


A lógica é simples: o trabalhador precisa ter onde falar, ser ouvido e encontrar orientação antes que o sofrimento se transforme em afastamento, adoecimento ou perda da capacidade laboral.


PRECARIZAÇÃO AMPLIA DESAFIO DA PROTEÇÃO SOCIAL

 


Outro eixo forte da agenda construída pelos grupos foi a proteção dos trabalhadores que estão nas áreas mais expostas à precarização.


Terceirizados, pejotizados, intermitentes, informais e plataformizados aparecem entre os segmentos considerados mais vulneráveis. O diagnóstico também alcança trabalhadores de setores como mineração, têxtil, confecção e calçados.


A resposta proposta passa por mais presença sindical, formação continuada e domínio das ferramentas de proteção social.


Uma das sugestões é ensinar o trabalhador a utilizar o Meu INSS para verificar suas contribuições.


Outra defende que as empresas forneçam ao sindicato documentos relativos aos recolhimentos de FGTS e INSS e informações do eSocial, ampliando a transparência e a capacidade de fiscalização das entidades.


A pauta inclui ainda garantia de emprego, fortalecimento das Cipas, qualificação profissional e proteção previdenciária.


Nesse eixo, a proposta do fim da escala 6x1 aparece ao lado de outras reivindicações históricas, reafirmando que a agenda sindical deve combinar novas demandas com bandeiras que permanecem centrais para a classe trabalhadora.


RENOVAR SEM PERDER A IDENTIDADE

 

 

Talvez um dos pontos mais sensíveis do relatório esteja na discussão sobre mulheres e juventude.


Os grupos reconheceram que o movimento sindical precisa ampliar a participação das novas gerações e enfrentar obstáculos culturais que dificultam a presença de mulheres e da diversidade nas estruturas de direção.


O relatório faz autocrítica ao questionar porque o sindicalismo consegue defender igualdade e diversidade no discurso, mas ainda encontra dificuldades para refletir essa diversidade nas próprias estruturas, sobretudo no dia a dia das entidades.


A solução proposta passa por abrir espaços de participação, criar departamentos orientados para jovens e mulheres, levar educação sindical às escolas, organizar rodas de conversa e aproximar as entidades do cotidiano dos trabalhadores.


A tarefa, entretanto, não é apenas renovar os quadros dirigentes. É recuperar a capacidade de fazer com que o trabalhador se reconheça como parte do sindicato.


Daí a defesa de prática permanente de conversa direta, presença nos locais de trabalho, apresentação das convenções e acordos coletivos e disseminação da história das lutas sindicais.


Uma das perguntas deixadas em aberto pelos grupos traduz a dimensão do desafio: “Por que tanta descrença no movimento? Será que paramos de avançar?”


CNTI MAIS DIGITAL, DEMOCRÁTICA E PRÓXIMA DA BASE

 


Na quinta mesa, os delegados reuniram os diferentes assuntos dos debates e construíram agenda para os próximos anos.


Na formação, propuseram parcerias com universidades, cursos, palestras e capacitação digital. Na saúde, defenderam atenção à saúde mental, fiscalização das normas regulamentadoras, prevenção de acidentes e acesso a atendimento médico, odontológico e psicológicos.


Na Previdência, apontaram a necessidade de assistência jurídica, orientação permanente e fiscalização do preenchimento correto do PPP (Perfil Profissiográfico Previdenciário).


Na renovação sindical, a palavra-chave foi participação.


O relatório propõe descentralizar decisões, fortalecer assembleias, ampliar a participação dos trabalhadores e trazer a nova geração para dentro das entidades. Também defende que os sindicatos sejam capazes de oferecer serviços e orientação sobre o acesso aos órgãos públicos e aos direitos sociais.


“Ouvir mais os trabalhadores para entender os problemas da atualidade” aparece como uma das sínteses dessa nova postura.


A proposta é que a transformação digital não substitua a presença física do sindicato, mas a amplie. Redes, IA, podcasts, canais de vídeo e cursos on-line devem funcionar como instrumentos adicionais de organização e formação.


FUTURO COMEÇA NA BASE
 

A experiência dos grupos de trabalho mostrou que celebrar 8 décadas não significa apenas olhar para trás. Significa perguntar o que precisa mudar para que a organização sindical continue fazendo sentido diante de uma classe trabalhadora que também está mudando.


A própria CNTI incorporou à agenda estratégica da entidade temas debatidos durante a Plenária, como formação sindical, precarização, inteligência artificial, renovação geracional, igualdade de gênero e redução da jornada. A Carta de Luziânia, aprovada no encerramento, atualizou a plataforma da entidade uma década depois da Carta de Brasília.


Nesse sentido, o trabalho coordenado por Regina Moreira cumpriu papel que ultrapassa a dinâmica pedagógica do evento. Colocou os delegados diante da tarefa de transformar conceitos em ações e problemas em compromissos.


A síntese talvez esteja na própria filosofia que atravessou os grupos: a CNTI pode preservar seus 80 anos de história sem ficar presa ao passado.


Para isso, precisará formar novas lideranças, dominar as tecnologias, cuidar da saúde dos trabalhadores, enfrentar a precarização, ampliar a participação de mulheres e jovens e, sobretudo, voltar sempre ao lugar onde o sindicalismo encontra a razão de existir: a base.


É ali que a história de 80 anos deixa de ser memória e se transforma em futuro.

 

 

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